A Revolta dos Posseiros no Sudoeste do Paraná (1957)


A Revolta dos Posseiros, também conhecida como Revolta dos Colonos, ocorrida em outubro de 1957 no sudoeste do Paraná, constitui um dos marcos mais expressivos das lutas pela terra no Brasil. O episódio envolveu milhares de agricultores que, armados de instrumentos de trabalho e de armas rudimentares, enfrentaram jagunços contratados por companhias colonizadoras, acusadas de grilagem e de uso de violência para expulsar famílias já estabelecidas na região (GOMES, 1986). Tal movimento não apenas representa a resistência de colonos diante de interesses empresariais e da omissão do poder público, mas também demonstra como os conflitos fundiários brasileiros se manifestaram em dimensões locais, inserindo-se no quadro mais amplo das disputas pela propriedade e pelo uso da terra.

O contexto de formação do conflito remonta ao início da década de 1940, quando o governo federal, no âmbito da política de interiorização conhecida como “Marcha para o Oeste”, criou a Colônia Agrícola Nacional General Osório (CANGO), em 1943, visando atrair migrantes do Sul do país para ocupar o Território Federal do Iguaçu. Esse movimento levou milhares de famílias do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina ao sudoeste paranaense, onde receberam a promessa de terras disponíveis para cultivo. No entanto, a ocupação ocorreu em meio a litígios judiciais envolvendo a União e o Estado do Paraná sobre o domínio das glebas da região, fato que fragilizou juridicamente a situação dos colonos (PEGORARO, 2008). Assim, a posse de terras permaneceu, desde o início, marcada pela precariedade e pela insegurança.

A partir de 1945, a situação agravou-se quando companhias privadas, com respaldo jurídico e político, obtiveram concessões sobre extensas áreas já ocupadas. Entre essas empresas destacou-se a Clevelândia Industrial e Territorial Ltda. (CITLA), que recebeu autorização para controlar mais de 475 mil hectares, abarcando inclusive a área da antiga CANGO, onde viviam milhares de famílias assentadas de fato. A companhia passou a exigir dos colonos contratos de compra e pagamento por terras que já ocupavam, recorrendo ainda ao uso de jagunços para intimidar e expulsar os que resistissem (KOLING, 2017). Relatos da época mencionam espancamentos, destruição de casas e assassinatos não registrados oficialmente, práticas que intensificaram a insatisfação e estimularam a organização dos posseiros (GOUEVIA, 2022).

O estopim da revolta ocorreu em 10 de outubro de 1957, quando cerca de seis mil colonos invadiram a cidade de Francisco Beltrão, ocupando a prefeitura, a delegacia e expulsando os representantes da companhia. Armados com foices, enxadas e velhas espingardas, os posseiros destruíram escritórios da CITLA e de outras empresas, queimaram contratos e expulsaram jagunços da região (GOMES, 1986). O movimento rapidamente se espalhou para outros municípios, como Pato Branco, Dois Vizinhos e Realeza, onde também houve tomada de prédios públicos e instalação de juntas provisórias para coordenar as ações (PEGORARO, 2008). Mulheres participaram ativamente da mobilização, seja no transporte de armas, no apoio logístico ou mesmo na linha de frente, embora sua atuação tenha sido por muito tempo marginalizada pela historiografia (GOUEVIA, 2022).

Apesar de confrontos pontuais e da ocorrência de mortes, a revolta não se consolidou como uma guerra prolongada, mas como um levante de forte caráter político e social. Diante da dimensão dos protestos, o governo estadual, liderado por Moysés Lupion, decidiu intervir, determinando o fechamento dos escritórios da CITLA e suspendendo os registros de terras da empresa. Essa decisão, tomada em meio à pressão popular, representou uma vitória para os colonos, que conseguiram barrar o avanço da grilagem e garantir a permanência nas terras ocupadas (KOLING, 2017). Contudo, a regularização fundiária definitiva só foi encaminhada anos depois, em 1962, com a criação do Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste do Paraná (GETSOP), responsável por legalizar as posses (GOMES, 1986).

O episódio deixou marcas políticas e sociais duradouras na região. Lideranças emergiram a partir da revolta, como Walter Alberto Pecoits, médico e radialista que apoiou os posseiros e mais tarde ingressou na política, e Hermógenes Lazier, que contribuiu para a reflexão histórica sobre a luta fundiária no sudoeste paranaense (GOMES, 1986; KOLING, 2017). Ao mesmo tempo, a revolta foi incorporada à memória oficial, sendo reconhecida no calendário do Paraná como o “Dia da Revolta dos Posseiros do Sudoeste” a partir de 2011. Pesquisas recentes têm buscado reconstituir o episódio sob novas perspectivas, dando maior atenção às vozes femininas, à violência sofrida pelos colonos e ao papel das companhias privadas na disputa por terras (GOUEVIA, 2022).

Em síntese, a Revolta dos Posseiros evidencia as contradições do processo de colonização do sudoeste do Paraná, marcado pela confluência de políticas estatais, interesses empresariais e lutas populares. O movimento revelou que, diante da exclusão fundiária e da violência, os posseiros foram capazes de se organizar e de impor derrotas significativas ao latifúndio e à grilagem. Mais que um episódio local, a revolta simboliza um capítulo das lutas pela terra no Brasil, em que a resistência camponesa conseguiu modificar, ainda que parcialmente, as estruturas de poder fundiário da região.

___E. E-Kan

Referências

GOMES, Iria Zanoni. 1957: a revolta dos posseiros: organização e resistência no sudoeste do Paraná. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade de São Paulo, 1986.

GOUEVIA, Aguinaldo Henrique Garcia de. A Revolta dos posseiros no Sudoeste do Paraná de 1957: possibilidades e demandas de estudo à luz de críticas sobre a marginalização das vozes femininas. Revista Vernáculo, Curitiba, n. 50, p. 65-88, 2022.

KOLING, Paulo José. Os líderes Farrapos na Revolta de 1957 no Sudoeste do Paraná: abordagens e revisões. Diálogos, Maringá, v. 21, n. 1, p. 303-325, 2017.

PEGORARO, Éverly. Revolta dos posseiros de 1957: consensos e desacordos de algumas interpretações. Revista Ideas – Interfaces em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1, p. 109-133, 2008.

Fonte da imagem: Acervo Paraná Histórica 

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